Deu no Bicho
25 de maio de 1993

Operação Cachaça: O Escândalo que Reconfigurou o Jogo do Bicho Brasileiro

A ação da Polícia Federal que prendeu a cúpula do bicho carioca, expôs a caderneta de propina de Castor de Andrade e alterou permanentemente a jurisprudência brasileira sobre contravenção organizada.

A Operação Cachaça, deflagrada pela Polícia Federal em 25 de maio de 1993, foi o marco jurídico mais importante da história do jogo do bicho no Brasil. Em uma única ação coordenada, o Estado brasileiro prendeu 14 dos principais banqueiros da contravenção carioca, apreendeu a caderneta manuscrita de Castor de Andrade — documento que registrava pagamentos de propina a policiais, juízes e políticos — e obteve, pela primeira vez, o enquadramento judicial da cúpula do bicho como formação de quadrilha, e não apenas como exploradores individuais de contravenção.

A operação encerrou uma era em que banqueiros como Castor eram figuras públicas, patronos de escolas de samba e financiadores abertos de campanhas políticas, e inaugurou o ciclo — que dura até 2026 — em que o jogo do bicho passou a operar sob gestão familiar discreta, com risco terceirizado e crescente convergência com outras economias criminais, especialmente a milícia da zona oeste do Rio.

Contexto (1990-1993)

A Operação Cachaça não surgiu no vácuo. Ela foi filha direta de três transformações institucionais que amadureceram entre 1988 e 1993: a promulgação da Constituição, o fortalecimento do Ministério Público como instituição autônoma, e o novo papel investigativo da imprensa após duas décadas de censura.

A Constituição de 1988 dotou o MP de independência funcional e orçamentária, o que permitiu que promotores conduzissem investigações sem depender do Poder Executivo. No Rio de Janeiro, o Ministério Público Estadual assumiu, a partir de 1990, postura mais agressiva contra a contravenção organizada — em coordenação, quando possível, com a Polícia Federal, que enxergava no bicho carioca um alvo de valor simbólico e jurídico grande.

A imprensa também mudou de patamar. Jornalistas investigativos de O Globo, Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil e Veja passaram a mapear publicamente a rede de banqueiros do bicho, seus vínculos com escolas de samba e sua penetração no aparato de segurança fluminense. Reportagens sucessivas entre 1991 e 1993 criaram o ambiente político que tornou a operação politicamente viável.

Por fim, o próprio governo Itamar Franco, em busca de legitimidade após o impeachment de Collor, precisava de vitrines de ação estatal contra corrupção sistêmica. A Polícia Federal, sob comando renovado, concentrou-se em alvos que combinavam impacto midiático, prova documental disponível e enquadramento penal exequível — perfil que Castor de Andrade e sua cúpula preenchiam com precisão.

A operação (25 de maio de 1993)

Na madrugada de 25 de maio de 1993, uma terça-feira, a Polícia Federal deflagrou simultaneamente mandados de busca e apreensão em residências e escritórios de banqueiros do bicho no Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense, em São Paulo e em outros estados. A ação envolveu mais de 300 agentes e foi coordenada com o Ministério Público Federal.

O epicentro foi Bangu, bairro-quartel-general de Castor de Andrade na zona oeste carioca. Na residência do banqueiro, os agentes encontraram, além de dinheiro em espécie, armas e documentos contábeis, uma caderneta escrita à mão — objeto banal, encontrado quase por acaso — que viria a ser a peça-chave de todo o processo. A caderneta registrava, de forma ordenada e sistemática, os pagamentos mensais feitos por Castor a servidores públicos e políticos.

Em paralelo, foram presos ou intimados os demais integrantes da cúpula: Capitão Guimarães, José Petrus, Emil Pinheiro, Turcão, Maninho, e outros. Aniz Abrahão David — o mais discreto da cúpula — foi indiciado, mas respondeu em liberdade e nunca chegou a ser preso pela ação.

A caderneta de Castor

A caderneta apreendida em Bangu tornou-se o documento mais citado da história do jogo do bicho brasileiro. Nela, Castor mantinha registro organizado, mês a mês, de pagamentos a delegados, comissários, escrivães, promotores, juízes de primeira instância, políticos estaduais e federais, dirigentes esportivos e jornalistas. Cada linha continha um nome (às vezes um apelido), o valor mensal e, em alguns casos, a periodicidade ou a natureza do serviço.

O impacto foi triplo. Primeiro, jurídico: a caderneta materializava, por escrito, a existência de uma organização estável de propina— elemento essencial para o enquadramento como formação de quadrilha. Segundo, midiático: nomes citados incluíam figuras públicas cuja reputação foi destruída da noite para o dia. Terceiro, institucional: delegados e juízes citados foram alvo de processos administrativos e criminais internos, forçando a Corregedoria da Polícia Civil e o Tribunal de Justiça a agirem.

Nunca houve divulgação integral pública da caderneta — parte dela ficou sob sigilo processual até hoje, e outra parte foi vazada em fragmentos para a imprensa entre 1993 e 1995. Estimativas jornalísticas da época falam em centenas de nomes e dezenas de milhões de dólares em propinas registradas ao longo dos anos anteriores.

Os 14 banqueiros indiciados

A operação indiciou 14 banqueiros como núcleo articulado. A tabela abaixo resume o papel de cada um, a pena aplicada e o desfecho conhecido em 2026.

BanqueiroPapel na cúpulaPena / desfecho judicialStatus atual (2026)
Castor de AndradeChefe simbólico da cúpula, base em Bangu6 anos por formação de quadrilhaMorreu de infarto em 1997, semanas após deixar o regime semiaberto
Capitão Guimarães (Ailton Guimarães Jorge)Militar reformado, articulador político e presidente da LIESACondenado por formação de quadrilhaCumpriu pena e retornou à presidência da LIESA nos anos 2000
José Petrus FilhoBanqueiro da Zona Oeste, articulador esportivo6 anos por formação de quadrilhaCumpriu pena; manteve influência residual nos bastidores do futebol
Aniz Abrahão DavidBanqueiro discreto de Nilópolis, ligado à Beija-FlorRespondeu em liberdade; sem prisão efetivaMorreu em 2020 sem jamais ter sido preso pela operação
Waldomiro Paes GarciaBanqueiro da zona norte de São PauloRespondeu a desdobramentos regionais em SPBaixa exposição midiática; ficou fora do núcleo mais penalizado
Luizinho DrummondBanqueiro carioca, descendente do fundadorCondenado por formação de quadrilhaCumpriu pena; continuou operando de forma reduzida no pós-1997
Emil PinheiroBanqueiro carioca e dirigente do BotafogoCondenado por formação de quadrilhaCumpriu pena; afastou-se progressivamente da diretoria esportiva
Maninho (Carlos Antônio Bragança)Operador de peso na Baixada FluminenseCondenado por formação de quadrilhaAssassinado em 2004 em disputa territorial
Turcão (Miguel Iunes)Banqueiro da Zona Norte cariocaCondenado por formação de quadrilhaCumpriu pena; retirou-se para gestão familiar restrita
Anísio ColiBanqueiro operacional ligado ao núcleo de BanguCondenado por formação de quadrilhaCumpriu pena; ficou como figura secundária no pós-operação
Paulinho AndradeOperador ligado à família AndradeCondenado por formação de quadrilhaCumpriu pena; passou a operar sob perfil discreto
Haroldo Nunes de AndradeFamiliar da linhagem Andrade, sócio secundárioCondenado por formação de quadrilhaCumpriu pena; retornou à Bangu com operação reduzida
Piruinha (Iomar Beira-Mar)Chefe territorial ligado à BaixadaCondenado por formação de quadrilhaCumpriu pena; morreu em circunstâncias violentas nos anos 2000
Nelo MangueiraBanqueiro auxiliar da cúpula, papel logísticoCondenado por formação de quadrilhaCumpriu pena; permaneceu à margem do comando principal

Julgamento e condenações

O processo correu na Justiça Federal do Rio de Janeiro e recebeu, em março de 1994, a primeira sentença: a maioria dos indiciados foi condenada por formação de quadrilha (art. 288 do Código Penal) e por exploração de jogo de azar (art. 58 da Lei das Contravenções Penais, o Decreto-Lei 3.688/1941). Foi a primeira vez, na história do jogo do bicho brasileiro, que a exploração da contravenção foi tipificada como quadrilha — e não apenas como contravenção pulverizada em condutas individuais.

As penas variaram entre quatro e seis anos de reclusão. Castor de Andrade recebeu seis anos e cumpriu parte da pena em regime fechado no Complexo Penitenciário de Bangu, ironicamente construído no bairro onde exerceu seu poder. Progrediu para o semiaberto por questões de saúde em 1997 e morreu poucas semanas depois, aos 70 anos.

Recursos, revisões criminais e progressões de regime se estenderam por anos. Alguns condenados obtiveram prescrição em segundo grau; outros cumpriram pena integral. O saldo jurídico, no entanto, foi irreversível: o precedente foi fixado, e a cúpula do bicho passou a ser tratada como organização criminosa em todas as operações subsequentes.

Consequências (1994-2000)

Entre 1994 e 2000, três mudanças estruturais consolidaram o novo patamar da relação entre o bicho e o Estado brasileiro.

Primeira: os banqueiros deixaram de ser figuras públicas. A geração de Castor — que dava entrevistas, aparecia em camarotes e ostentava o patronato de escolas de samba — foi substituída por sucessores familiares discretos. Aniz Abrahão David, que já operava silenciosamente, tornou-se o modelo dominante do período pós-Cachaça.

Segunda: o Judiciário passou a aceitar, com muito menos resistência, o enquadramento de núcleos do bicho como organização criminosa. Investigações do MP-RJ ao longo dos anos 1990 e 2000 se apoiaram no precedente da Cachaça para justificar interceptações telefônicas, quebra de sigilos bancários e sequestro de bens.

Terceira: a rede de proteção institucional sofreu desgaste permanente. Delegados citados na caderneta foram exonerados, juízes foram alvo de processos administrativos, e políticos citados perderam mandatos ou capital eleitoral. A propina não desapareceu, mas o custo — reputacional e criminal — de recebê-la aumentou de forma irreversível.

Legado até 2026

Trinta e três anos depois, a Operação Cachaça permanece o marco jurídico e simbólico contra o qual todas as operações posteriores são medidas. A Operação Cadeia Velha, de 2018, é lida pela imprensa e pela literatura acadêmica como o "segundo ato" da Cachaça, agora atingindo a geração seguinte — Rogério de Andrade e outros herdeiros — sob acusações que combinam bicho tradicional, lavagem de dinheiro e vínculos milicianos.

A imagem pública de Castor de Andrade sobreviveu à condenação. Ele permanece, no imaginário carioca, como personagem literário-quase-mítico — patrono, contraventor e vítima simultânea de uma modernização institucional que ele não previu. A caderneta manuscrita, por sua vez, entrou definitivamente na história política brasileira como o equivalente contravencional das planilhas do Mensalão, do Petrolão e das delações da Operação Lava Jato: documento único e irrepetível que expôs, em prova bruta e escrita à mão, o funcionamento cotidiano da corrupção sistêmica.

Perfis dos principais envolvidos

Perguntas frequentes

O que foi a Operação Cachaça?

A Operação Cachaça foi uma ação da Polícia Federal deflagrada em 25 de maio de 1993 contra o núcleo dirigente do jogo do bicho carioca. Prendeu 14 banqueiros e apreendeu, na casa de Castor de Andrade em Bangu, uma caderneta com registros de propina paga a policiais, juízes e políticos — prova pública inédita do sistema de proteção institucional da contravenção.

Por que foi chamada de Operação Cachaça?

O nome veio do codinome utilizado internamente pela Polícia Federal durante a investigação. Não há referência oficial sobre a origem exata do apelido — a documentação da PF apenas registra o termo como identificador operacional da força-tarefa que atuou no Rio de Janeiro entre 1992 e 1993.

Quantos banqueiros foram condenados?

Foram 14 banqueiros indiciados e a maioria condenada em 1994 por formação de quadrilha e exploração de jogo de azar, com penas em torno de seis anos de reclusão. Foi a primeira vez na história brasileira que o jogo do bicho foi tratado judicialmente como núcleo articulado de organização criminosa, e não apenas como contravenção pulverizada.

O que havia na caderneta apreendida?

A caderneta apreendida na casa de Castor de Andrade em Bangu continha registros manuscritos de pagamentos de propina a delegados, comissários, escrivães, juízes de primeira instância, políticos estaduais e até dirigentes esportivos. A lista, com dezenas de nomes e valores mensais, tornou-se prova documental determinante para a condenação da cúpula.

Como a Operação Cachaça reconfigurou o jogo do bicho?

A operação encerrou definitivamente a fase em que o bicho operava com respaldo público de banqueiros-celebridades. Depois de 1993, a atividade migrou para gestão familiar discreta, terceirização de risco e, a partir dos anos 2000, convergência com milícias — mudanças que se tornaram visíveis 25 anos depois na Operação Cadeia Velha.

Fontes

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Publicado em Deu no Bicho. Última revisão em 19 de setembro de 2026.