Deu no Bicho
Setembro de 2018

Operação Cadeia Velha: A Próxima Geração do Bicho Enfrenta o Judiciário

O golpe do Ministério Público do Rio contra a geração pós-Castor: interceptações telefônicas, milícia da zona oeste e sequestro de bens milionários 25 anos depois da Operação Cachaça.

A Operação Cadeia Velha foi deflagrada em setembro de 2018 pelo Ministério Público do Rio de Janeiro contra a geração remanescente do comando do jogo do bicho carioca. Teve como alvo central Rogério de Andrade, sobrinho e herdeiro operacional parcial de Castor de Andrade, e mapeou pela primeira vez, com prova judicial estruturada, a convergência entre o jogo do bicho tradicional e a nova economia paramilitar da zona oeste carioca.

Se a Operação Cachaça de 1993 marcou o fim da era dos banqueiros públicos e midiáticos, a Cadeia Velha desenhou o perfil do bicho do século XXI: gestão familiar discreta, laranjas e empresas de fachada, convergência com milícia, e uma jurisprudência que trata a contravenção não mais como crime individual, mas como nó de organização criminosa multiproduto.

Contexto (2000-2018)

Os 25 anos que separam a Operação Cachaça da Cadeia Velha foram de silenciosa mas profunda reconfiguração do jogo do bicho carioca. Três movimentos foram decisivos.

Primeiro, sucessão familiar. Após 1993, os banqueiros públicos deram lugar a herdeiros ou operadores por procuração. Castor de Andrade, na prisão até 1997 e morto naquele ano, passou influência a familiares como Rogério de Andrade. Aniz Abrahão David — sempre discreto — assumiu protagonismo até sua morte em 2020. Capitão Guimarães manteve peso institucional pela LIESA, embora sem operar diretamente as bancas.

Segundo, ascensão miliciana. Entre 2005 e 2015, grupos paramilitares formados por policiais militares, ex-policiais, bombeiros e agentes penitenciários — as chamadas milícias — tomaram territórios inteiros da zona oeste carioca (Rio das Pedras, Muzema, Curicica, Campo Grande, Santa Cruz). O jogo do bicho, atividade que exigia proteção territorial, converteu-se em fonte de renda regular para essas estruturas: bancas passaram a operar sob taxa ou concessão miliciana.

Terceiro, digitalização parcial. A entrada de canais digitais informais (grupos de WhatsApp, pagamento por Pix a partir de 2020) começou a transformar a operação de rua, mas em 2018, no momento da Cadeia Velha, o bicho ainda operava majoritariamente em ambiente físico e em dinheiro vivo — o que facilitou o trabalho investigativo do MP.

A operação (setembro 2018)

O Ministério Público do Rio de Janeiro deflagrou a operação em setembro de 2018, com apoio da Polícia Civil fluminense. Foram cumpridos dezenas de mandados de busca e apreensão, de prisão preventiva e de sequestro de bens em endereços na Zona Oeste, Baixada Fluminense, Barra da Tijuca e outros municípios do estado.

O núcleo da prova foi construído ao longo de mais de dois anos de interceptação telefônica autorizada judicialmente, além de quebra de sigilo bancário e fiscal, análise de movimentação patrimonial e depoimentos de colaboradores. Diferente da Cachaça — que se apoiou em uma peça documental única (a caderneta) — a Cadeia Velha organizou-se sobre um mosaico de escutas, planilhas contábeis apreendidas e rastros digitais.

Rogério de Andrade foi apresentado, na denúncia, como um dos líderes da organização criminosa. Ao seu lado, foram indiciados operadores intermediários, familiares, laranjas responsáveis por manter empresas de fachada em nome próprio, e agentes públicos suspeitos de facilitar a operação.

Rogério de Andrade e a rede pós-Castor

A denúncia do MP-RJ desenhou, pela primeira vez em um documento judicial, o mapa operacional herdado por Rogério da estrutura construída por Castor entre os anos 1960 e 1990. Territórios de Bangu, Realengo, Campo Grande e municípios da Baixada Fluminense — historicamente sob comando dos Andrade — apareceram vinculados à rede investigada, junto com pontos de apostas, criações de cavalos, empresas de fachada e ativos financeiros milionários.

O que a operação evidenciou é que a "herança" do bicho não é apenas simbólica ou territorial: é operacional. Apontadores, cambistas fixos, gerentes regionais e caixas de pagamento seguem uma cadeia de comando estruturada há décadas, em que a substituição do banqueiro no topo não desmancha a rede, apenas troca de nome.

A conexão com milícia

O elemento mais novo trazido pela Cadeia Velha em relação à Cachaça foi a documentação do vínculo entre o bicho tradicional e a milícia da zona oeste. Escutas telefônicas capturaram diálogos em que operadores discutiam pagamento de taxa a grupos armados para operar em determinadas regiões, negociavam divisão de território com chefes milicianos e articulavam conjuntamente respostas a ameaças rivais.

Essa convergência não é meramente instrumental. Ela reconfigurou o próprio modelo de negócio do bicho carioca: em áreas de forte controle miliciano, o banqueiro do bicho passou a operar como franqueado do grupo paramilitar dominante, entregando percentual da renda em troca da proteção — invertendo, portanto, a lógica clássica em que a proteção vinha do aparato oficial mediante propina.

Investigações posteriores, entre 2019 e 2024, aprofundaram esse mapeamento e mostraram que a convergência bicho-milícia tornou-se, em alguns territórios, a principal fonte de renda regular dos grupos paramilitares, ao lado do gás clandestino, do transporte alternativo e das taxas imobiliárias informais.

Bens sequestrados

O MP-RJ obteve, por decisão judicial, o sequestro de patrimônio estimado em mais de R$ 100 milhões nos meses seguintes à deflagração. Entre os ativos, apareceram imóveis de alto padrão em bairros nobres do Rio, veículos de luxo, criações de cavalos de raça, participações em empresas de aluguel e locação, aeronaves, embarcações e ativos financeiros.

A exposição pública desse patrimônio teve dois efeitos. Primeiro, ratificou perante a opinião pública a escala real da operação do bicho carioca — muito maior do que o imaginário da "banca de esquina" sugere. Segundo, forneceu aos promotores base concreta para acusações adicionais de lavagem de dinheiro, já que boa parte do patrimônio estava registrada em nome de terceiros ou de empresas de fachada.

Consequências

A Cadeia Velha inaugurou uma nova fase de repressão ao jogo do bicho no Rio: mais tecnológica, mais focada em provas circunstanciais e mais integrada com investigações paralelas contra milícias, corrupção policial e lavagem de dinheiro. Operações subsequentes do MP-RJ, da Polícia Federal e da Receita Federal, entre 2019 e 2025, se apoiaram no arcabouço probatório construído em 2018.

A jurisprudência, por sua vez, consolidou o tratamento do bicho como convergência criminal multiproduto: um só grupo, simultaneamente investigado por contravenção, organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção passiva/ativa e associação com milícia. Essa moldura penal amplia significativamente as penas potenciais em relação ao enquadramento clássico apenas como contravenção.

Comparação com Cachaça (1993 × 2018)

DimensãoCachaça (1993)Cadeia Velha (2018)
Órgão condutorPolícia Federal + MPFMinistério Público do Rio + Polícia Civil
Prova centralCaderneta manuscrita de CastorInterceptação telefônica + sigilo bancário
Alvo principalCastor de Andrade e a cúpula públicaRogério de Andrade e herdeiros discretos
EnquadramentoFormação de quadrilha + contravençãoOrganização criminosa + lavagem + milícia
Relação com o EstadoPropina a servidores públicosConvergência com milícia paramilitar
Ativos expostosCasas, contas, empresas familiares+ R$ 100 milhões em imóveis, cavalos, empresas de fachada
Impacto no modelo de negócioFim da era dos banqueiros públicosFragmentação + digitalização + terceirização a milícias

Vinte e cinco anos separam as duas operações, mas o fio condutor é o mesmo: o Estado brasileiro, por seus órgãos de persecução, insistindo em atacar não o apostador de rua, e sim o comando organizado. A diferença é que, em 2018, esse comando já não se parece com o de 1993 — e o próximo já não se parecerá com o de 2018.

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Perguntas frequentes

O que foi a Operação Cadeia Velha?

A Operação Cadeia Velha foi uma ação deflagrada em setembro de 2018 pelo Ministério Público do Rio de Janeiro contra a geração pós-Castor do jogo do bicho carioca. Teve como alvo principal Rogério de Andrade, sobrinho de Castor, e mapeou a convergência entre bicho tradicional, lavagem de dinheiro e milícia da zona oeste.

Por que foi chamada de Cadeia Velha?

O nome faz referência à antiga expressão popular carioca para designar uma sucessão de vínculos criminais estabelecidos ao longo de gerações — a 'velha cadeia' de comando do bicho que atravessou décadas. Também dialoga simbolicamente com a Operação Cachaça de 1993: outra 'cadeia' contra a mesma estrutura, 25 anos depois.

Qual é a diferença entre Cadeia Velha e Cachaça?

A Cachaça (1993) atingiu banqueiros públicos, patrocinadores de escolas de samba e figuras de mídia, com prova documental crua (a caderneta). A Cadeia Velha (2018) mirou herdeiros discretos, operando por meio de laranjas e empresas de fachada, com prova baseada em interceptação telefônica, quebra de sigilo e análise de movimentação bancária.

Quais foram os bens sequestrados?

O MP-RJ obteve o sequestro de imóveis de alto padrão no Rio, veículos de luxo, participações em empresas de fachada, criações de cavalos, apartamentos em bairros nobres e ativos financeiros no valor estimado, à época, em mais de R$ 100 milhões. Parte dos bens permaneceu sob administração judicial ao longo de anos.

A Cadeia Velha encerrou o jogo do bicho no Rio?

Não. A operação desarticulou parte do comando familiar herdado de Castor, mas o bicho carioca reconfigurou-se em núcleos menores, mais fragmentados e frequentemente sobrepostos a estruturas milicianas da zona oeste. A contravenção continuou operando em 2019-2026, com maior digitalização, uso de Pix informal e menor visibilidade pública.

Fontes

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Publicado em Deu no Bicho. Última revisão em 19 de setembro de 2026.